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GASTO POR ALUNO (publicado no Estado de São Paulo em 10/12/2023)


Há tempos as universidades públicas têm recebido duras críticas dos mais diferentes setores da sociedade. Muitas delas são realmente válidas e deveriam ser debatidas para que propostas de melhoramento pudessem colocar as universidades no patamar que elas merecem. Quero focar numa das maiores palermices que vem à tona intermitentemente: o cálculo de gasto (SIC) por aluno. Esse cálculo divide todo o orçamento da universidade pelo número de alunos que ela forma, e isso é de uma infantilidade abissal. Vejamos, a sociedade precisa de muitos profissionais ou de profissionais competentes? Ora, eu diria que das duas coisas, principalmente em áreas bem sensíveis, como a engenharia/tecnologia e as licenciaturas. Mas vamos analisar com um pequeno aumento, não precisa de microscópio, apenas uma lupa. Cada estudante formado, em qualquer cenário, será responsável por preencher alguma função que terá fundo social, mesmo que ele opte pelos postos em empresas privadas ou mesmo que seja um profissional liberal. Tomemos este último caso como exemplo: qual o valor de um médico que trata de forma eficiente seus pacientes, advogados que saibam tramitar com destreza entre os meandros da Justiça ou profissionais de educação física que saibam prescrever corretamente exercícios (na quantidade e qualidade realmente necessária)? Podemos calcular este valor: quantas pessoas deixam de evoluir para estágios mais graves aos custos dos cofres públicos por ter um atendimento primário eficiente? Quantas horas se economiza em tribunais com advogados e juízes eficientes? Quantas pessoas deixam de procurar ajuda médica e hospitalar se pratica exercícios na dosagem correta? Tudo isso dá para calcular. Agora pense em tratarmos alunos de universidades públicas como uma mercadoria, quanto menos o gasto e maior o número, mais eficiente é a gestão? Calcule paralelamente quantos pacientes evoluem para casos mais graves por terem sido atendidos por uma multidão de médicos que não sabem fazer um diagnóstico correto? Quantas horas, advogados e juízes gastam a mais por causa de erros processuais? Quantas pessoas adquirem doenças como diabetes, hipertensão, obesidade, doenças do coração ou se lesionam por serem acompanhadas por profissionais de educação física pouco capacitados? Encher as salas de alunos e formar quantidades (com menos custo per capita) não é atestado de qualidade e muito menos de boa prática na gestão de dinheiro público.

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Após a publicação deste texto e do compartilhamento que fiz nas redes sociais duas contribuições interessantes foram apresentadas:

- A Professora Andreia Galina compartilhou o link do artigo "Falsos mitos sobre custos e gastos com alunos das universidades Federais" de Nelson C Amaral

- O Professor Lázaro Eustáquio P Peres compartilhou o artigo "O (surpreendente?) baixo custo de uma boa universidade pública" de Otávio Helene


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