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A Artemis II é cara? Espere até ver quanto custa uma guerra

Enquanto muitos se maravilham com a missão Artemis II lançada pela NASA em 1° de abril de 2026, outros voltam para um velho chavão contra a exploração espacial: para que gastar tanto dinheiro com viagem ao espaço se temos tantos problemas aqui na Terra como fome, miséria e desigualdade?

É uma pergunta legítima, afinal, não devemos negligenciar pessoas passando por dificuldades, sobrevivendo sem dignidade e com a morte à espreita incessantemente. Como humanos deveríamos estar incansavelmente alertas para todo tipo de violação de direitos básicos para uma vida digna e plena.

Mas será que essa crítica está mirando no alvo correto? 

Vamos a alguns dados.

O investimento no projeto Artemis (5 missões inicialmente previstas) é de 55 bilhões de dólares. Dinheiro pra chuchu, como diria minha mamãe. No câmbio de hoje, daria para comprar mais de 340 milhões de cestas básicas no Brasil, isso para fazer um paralelo, em outros países pode até dar mais. Certamente não resolveria o problema da fome, mas atenuaria para muitas pessoas. Calcula-se que cada lançamento custa em torno de 4 bilhões de dólares. 

Eu poderia fazer um paralelo com diversas outras coisas como quantos medicamentos, quantos poços para obtenção de água potável, quanto em roupas ou casas para desabrigados, etc. Mas prefiro raciocinar de outro modo.

Os mesmos Estados Unidos que financiaram o projeto Artemis II estão entrando na quinta semana de uma guerra conjunta com Israel contra o Irã. Não quero entrar aqui no mérito da guerra, apesar de ter o defeito de ser pacifista. Quero apenas olhar para alguns números, ainda que meu viés já esteja declarado.

Segundo o jornal The Guardian os seis primeiros dias de guerra custaram aos EUA cerca de 11 bilhões de dólares! Sem contar com alguns custos indiretos, como: os custos das bases, veteranos, reparo de equipamentos, custos econômicos, etc. Outra fonte, o Centro Para Estratégia e Estudos Internacionais (CSIS, na sigla em inglês), usa um relatório do Departamento de defesa estadunidense para indicar um gasto de mais de 16 bilhões de dólares até o 12° dia de guerra.

Isso dá cerca de 1,3 bilhões de dólares por dia em média para a guerra, contra 0,4 bilhões de dólares por dia da viagem até a órbita da Lua e do retorno à Terra, estimada em 10 dias! 

Ah!  você pode dizer  Defesa é importante! Eu também acho, mas você pode me dizer o que essa guerra tem a ver com defesa? Defesa do que mesmo? Como disse, não quero entrar no mérito, desculpe.

Continuando com outras comparações mais amplas. 

O orçamento total da NASA para 2026, aprovado pelo Congresso dos EUA, é de 24 bilhões de dólares, enquanto o do Departamento de Defesa é de 961 bilhões de dólares! São 40 vezes mais, sim, 40 vezes mais! Um único mês de orçamento militar pagaria 3 anos de orçamento com exploração espacial. Se você não ficou chocado, eu fiquei.  

Acontece que é um padrão mundial. Estima-se que a China gaste 12 bilhões de dólares com seu programa espacial, enquanto gasta 314 bilhões com defesa. Vinte e seis (26) vezes a mais. A Rússia tem gastos militares estimados em 149 bilhões de dólares contra 3 bilhões em seu programa espacial (quase 50 vezes mais). A Agência Espacial Europeia (ESA, da sigla em inglês) recebe entre 6 e 7 bilhões de dólares enquanto o bloco gasta mais de 300 bilhões para manutenção e investimentos no setor militar. No mundo todo são entre 70 e 100 bilhões de dólares investidos em ciência e tecnologia espacial e 2,7 trilhões em armas, exércitos, bases e desenvolvimento de novas tecnologias militares.

Bom, sei lá. Se queremos realmente combater a fome, a miséria e a desigualdade, talvez devêssemos olhar primeiro para onde vão os trilhões  e não para onde vão alguns bilhões.

Afinal, o que tem servido mais à humanidade: a guerra ou a exploração do cosmos?

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PS - E há outro detalhe que raramente aparece nas críticas à exploração espacial: grande parte do que chamamos hoje de infraestrutura moderna originou-se diretamente das missões espaciais. Satélites permitem prever furacões, monitorar queimadas e desmatamento, orientar a agricultura de precisão e manter sistemas globais de comunicação e navegação como o GPS. Muitas tecnologias desenvolvidas para missões espaciais também acabaram encontrando aplicações aqui na Terra, em equipamentos médicos, filtros de água, sensores ambientais e materiais de isolamento térmico. Em outras palavras: investir no espaço não significa abandonar a Terra — significa também desenvolver ferramentas que ajudam a cuidar melhor dela.

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